sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Ultra-sonografia da boa índole

Começo de tarde, fome e uma missão: buscar o resultado de uma ultra-sonografia numa clínica situada em bairro nobre da cidade de Oxum. Entrei, solicitei a entrega do exame e me sentei para aguardá-lo. Enquanto isso, eu ouvia o noticiário sobre o primeiro dia do Festival de Verão. Falo que ouvia porque estava de costas para a TV, o que certamente me impedira de assisti-la.
As notícias contavam sobre o sucesso que tinha sido o primeiro dia, da presença de 50 mil pessoas na pista e das apresentações que o dia reservara. Até aí, tudo normal. A maré foi virando quando a recepcionista da clínica ousou certos comentários. Ela disse que a Estação Mussurunga ficara lotada por conta do festival, que atrapalhara os trabalhadores de voltarem para casa, etc. O que há de errado? Nada.
Começou a declinar quando ela relatou que à meia-noite já havia várias pessoas presas na Estação, retiradas da festa e colocadas ao chão por terem brigado. Depois de ela enfatizar a grande quantidade de pessoas presas, veio o susto:
_ O pior não é isso! O pior é que você via que era gente de boa índole!
Constrangido, o rapaz que estava ao meu lado, respondeu:
_ Deve ser o pessoal que não tem costume de beber, toma umas a mais e procura briga.
Bem, eu fiquei me perguntando o significado de gente de boa índole, sobretudo no contexto que a recepcionista apontara. Pensei que o dicionário não daria conta de minha curiosidade dessa vez. Achei melhor não perguntar à moça o que ela quis dizer com aquilo.
Quando recebi o exame, assinei o livro que confirma a entrega, cumprimentei-a e fui para casa. Contudo, aquela experiência não fora deixada naquela recepção; durante o caminho, não saberia dizer o que fora mais perturbador para mim; se fora o balanço do ônibus, a demora em chegar à minha casa ou o balanço que a recepcionista fizera em minha mente. Eles me acompanharam até meu destino.
Refletindo melhor, pude compreender o que significa gente de boa índole. Imagino que as pessoas presas eram brancas, vestiam roupas de valor alto, usavam calçados caros, e, portanto, tinham boa índole. Claro que era isso! Pessoas negras, vestidas de forma simples, certamente, têm mau caráter. Pessoas negras, vestidas elegantemente, certamente, têm mau caráter. Pessoas negras ou quase negras, vestidas de pele negra, certamente, têm mau caráter. “O Haiti é aqui, o Haiti não é aqui”.
Foi então que pensei: eu tenho boa índole? Ela ou o rapaz que consentiu a idéia dela, coincidentemente negros, têm boa índole? Nem essas perguntas ou o significado da expressão “gente de boa índole”, eu saberei responder. Peço apenas, encarecidamente, àquele que ler esse texto:
_ Reze pelo Haiti!

Um comentário:

Fernando Borges disse...

É muito comum julgamentos desse tipo... Mas acredito que, no caso do Brasil, seja uma questão mais sócio/econômica do que étnica em si.

Um negro sempre está mais propenso a sofrer discriminações, desrespeito e julgamentos de valor precipitados, independente de se vestir bem ou não. Mas um negro mais "simples" (pobre), pelo simples fato de ser mais simples sofre muito mais com isso.

Enfim... É uma questão complicada... O racismo está aí realmente.

Lembro de um dia em que passei por um misto de situações do tipo. Fui pegar um taxi, na Vila Madalena, e quando o taxista, que estava parado , viu eu fazer um sinal e me aproximar, fez um sinal negativo com o dedo, querendo dizer não. Ele era o único taxi na rua e não estava transportando ninguém.

Nesse mesmo dia, numa roda de amigos e colegas brancos, depois de todo mundo já ter tomado umas, uma menina na mesa solta o seguinte: "Gente, vocês não acreditam, fiquei com um preto esse final de semana!". Ela não disse isso com orgulho, mas sim com asco na voz. Todos ficaram horrorizados com o fato de ela ter ficado com um "preto".

Eu ser negro e estar na mesa não impediu ninguém de fazer mais comentários racistas.
Isso aconteceu pois eu não era visto por essas pessoas como um típico "preto", mas sim como um integrante alternativo do mesmo círculo e classe social que elas.

Desculpa ter escrito tanto!